Lições da Islândia
O voto da Islândia mostra que uma integração estreita, mesmo sem adesão formal, pode ser estável, credível e politicamente atrativa. A mesma lição aplica-se ao Reino Unido
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02 setembro 2026 09:54
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O voto negativo não é uma rejeição da Europa, mas demonstra que a adesão à UE não é o único caminho para a integração europeia.
O resultado do referendo na Islândia não rejeita a integração europeia. Mostra que o atual enquadramento do país no Espaço Económico Europeu (EEE) — acesso ao mercado único, livre circulação e participação em programas da UE sem a adesão à União e sem direito de voto sobre as regras europeias — é suficientemente atrativo para manter o status quo.
Ao contrário da maioria da cobertura mediática, os islandeses não foram questionados sobre se queriam aderir à União, mas sim sobre se deveriam reabrir as negociações de adesão suspensas em 2013. Um voto no “Sim” a nada os teria comprometido, uma vez que qualquer eventual acordo exigiria um segundo referendo. Com uma participação superior a 80%, 52,8% votaram “Não” contra 47,2% no “Sim”. Apenas os dois círculos eleitorais de Reiquiavique apoiaram o reatamento das negociações; todas as outras regiões do país, incluindo os próprios subúrbios da capital, recusaram-se até mesmo a descobrir que condições a Islândia poderia ter obtido.
A verdade é que a Islândia já faz parte da ordem económica e jurídica europeia. Aplica grande parte do quadro regulamentar económico da UE e integra o espaço Schengen e o mercado único. O que lhe falta é representação nas instituições da UE ou o direito de voto sobre as regras que é subsequentemente obrigada a transpor.
A adesão plena daria à Islândia essa capacidade de intervenção e esse voto. Poderia também oferecer maior estabilidade económica e, a prazo, o euro. Contudo, exigiria que o país partilhasse o controlo sobre setores sensíveis como as pescas, a agricultura e os recursos naturais, razão pela qual os islandeses preferiram, em última análise, manter-se no modelo do EEE.
Isto representa simultaneamente um aviso e uma oportunidade para Bruxelas.
O aviso não é uma perda imediata de atratividade da adesão à UE, como muitos argumentaram, nem significa que os países candidatos devam agora preferir o EEE à adesão plena. A lição da Islândia é muito mais específica e decorre em grande parte da sua natureza singular: alguns Estados europeus podem, de forma perfeitamente racional, preferir uma integração profunda sem a pertença política. A UE deve deixar de encarar a adesão plena como o único destino possível.
A opção do EEE tem o seu preço. A Islândia — tal como a Noruega e o Listenstaine, os outros membros do EEE — adota muitas das normas da UE sem votar sobre elas. Sofre também o impacto direto de decisões comerciais da UE nas quais não tem qualquer palavra a dizer, mesmo quando estas afetam diretamente os seus interesses económicos. Em novembro de 2025, a UE impôs tarifas de salvaguarda sobre ferroligas — uma matéria-prima na produção de aço — após concluir que as importações tinham prejudicado os produtores da UE. A medida aplicou-se à Noruega e à Islândia apesar do seu estatuto no EEE, dado que as ferroligas não estão abrangidas pelas disposições do acordo relativas à livre circulação de mercadorias. O ministro das Finanças da Noruega, Jens Stoltenberg, apelou a Bruxelas para que adiasse a medida; a UE avançou mesmo assim. Meses mais tarde, a UE fixou novas tarifas sobre o próprio aço — e, desta vez, isentou totalmente a Noruega, a Islândia e o Listenstaine. No caso das ferroligas, os três países pagaram; no do aço, um produto estreitamente relacionado, não pagaram. Em ambos os casos, não tiveram direito a voto, e essa mesma ausência produziu resultados opostos, decididos sempre em Bruxelas, e não em Reiquiavique ou em Oslo.
É precisamente isto que torna a escolha da Islândia tão reveladora. Os eleitores não escolheram o EEE porque este oferece todas as vantagens da adesão a custo zero. Escolheram-no apesar das suas limitações democráticas e económicas. Para eles, a integração no mercado sem participação na decisão política continuou a ser preferível à procura da adesão plena.
A Islândia não serve, contudo, de modelo para todos os países candidatos. É próspera, já está protegida pela NATO e depende menos do financiamento da UE ou da condicionalidade do processo de adesão do que a Ucrânia, a Moldávia ou os países dos Balcãs Ocidentais. Para muitos destes Estados, a adesão plena continua a ser incomparavelmente mais valiosa.
Ainda assim, a experiência da Islândia também aponta onde reside a oportunidade. A UE continua a não oferecer alternativa à adesão plena: ou se conclui um processo de adesão longo e cada vez mais incerto, ou se fica de fora. A Islândia demonstra que uma posição intermédia duradoura não só é politicamente viável como também atrativa e, em última análise, que a adesão plena não é o único estatuto respeitável. Uma filiação no EEE baseada no acesso ao mercado, na livre circulação e no alinhamento legislativo, combinada com uma participação estruturada na elaboração das regras que os seus membros têm de aplicar, poderia constituir uma alternativa para países incapazes ou relutantes em aceitar o pacote completo, mantendo a porta aberta para uma integração posterior.
Foi precisamente por esta mudança de paradigma que me bati no “The Guardian” em 2023. O “Grupo dos Doze” franco-alemão propôs círculos concêntricos: um núcleo interno, a própria UE, um nível associado estruturado em torno do mercado interno e uma Comunidade Política Europeia mais ampla e flexível no exterior. Em vez de um modelo único de “pegar ou largar”, os países poderiam escolher a profundidade de integração que melhor lhes conviesse.
O voto da Islândia mostra que uma integração estreita, mesmo sem adesão formal, pode ser estável, credível e politicamente atrativa.
A mesma lição aplica-se ao Reino Unido. O regresso à UE continua a ser politicamente improvável, enquanto a relação atual é muito mais distante do que muitos britânicos poderão, em última análise, desejar. O estatuto no EEE poderia oferecer uma via de regresso à integração europeia sem reabrir de imediato a questão da adesão. Essa poderá ser a derradeira lição do voto islandês para todo o continente.
Alberto Alemanno é académico, autor e uma voz de referência no debate sobre a democratização da UE. É Democracy Fellow na Universidade de Harvard, Professor Jean Monnet na HEC Paris e fundador da The Good Lobby.